Panorama da prostituição no DF
Dezembro 3, 2009
Por Cristiano Saraiva e Vinícius Thompson

No início do mês de novembro um casal foi denunciado pela prática do rufanismo – obter lucros através da prostituição. Garotas (algumas com menos de 18 anos) eram convidadas a comparecerem a boate Pathernon localizada em Taguatinga, cidade a 45 km de Brasília.
No local as mesmas recebiam por dançar no palco trajando pouca, ou nenhuma roupa. Outras eram contratadas para ficarem passeando no meio dos clientes oferecendo fichas e programas para os clientes.
O cenário da prostituição no DF é bem amplo e organizado. Dividido em três tipos: O das garotas que oferecem os seus serviços na rua, as que anunciam em jornais, e um terceiro grupo que são garotas agenciadas.
Delivery
Um taxista que preferiu não se identificar conta que alguns clientes, principalmente lobbystas que frequentam a cidade nos finais de semana são os que mais procuram esse serviço de alto padrão. As garotas mais procuradas são as chamadas “de luxo”, meninas com até 26 anos, cultas e discretas. Algumas chegam a ser convidadas para comparecer em jantares de luxo e em eventos sociais, alguns patrocinados pelo governo.
Nossa jornada na busca dessas meninas tem início no estacionamento do Anexo 4 da Câmara dos Deputados, local onde ficam os gabinetes da maioria dos deputados. Embarcamos em um taxi em direção a um shopping próximo, o taxista pede pra gente esperar no carro, ele retorna com uma loira de 1,70 de altura, a moça estava trajando um vestido preto colado, com a estampa de uma loja.
No dia seguinte voltamos ao mesmo shopping sem o taxista, e nos deparamos com a mesma loira dentro da loja de roupa da marca que estava marcada em seu vestido.
Desiludida em Brasília
A jovem de olhos marinados e vestido azul, desconfia da nossa aproximação. Suas amigas se afastam dizendo que a gente está atrapalhando. Desde o começo a nossa proposta sempre foi de mostrar o lado humano das pessoas que estão esse meio. Encontramos Cristina*, ela nos conta ter 29 anos, mas que quando questionada sempre diz ter uma idade menor.
Veio parar na capital após descobrir que o trabalho prometido em Goiânia em um restaurante na verdade era pra que ela se prostituisse em uma boate da cidade em troca de moradia – um quartinho nos fundos do local. Metade do valor cobrado nos programas ficava com o se cafetão, que de acordo com ela é policial na cidade.
Acabou fugindo da cidade junto com uma amiga, em fevereiro desse ano. Procuraram empregos, sem sucesso. Acabaram retornado para a prostituição, as duas dividem uma quitinete na 705 sul onde levam seus clientes, pelo uso do local cobram R$ 20 reais a mais por programa.
A proteção da internet
Mas não é apenas nas ruas que elas buscam seus clientes, a internet tem se tornado o principal local de divulgação dos serviços de acompanhantes. Ela criou uma barreira que serve para proteger tanto as meninas quanto os potenciais clientes, tendo em vista que o primeiro contato não é de maneira direta, mas sim através de fotos e por telefone.
O fotógrafo Leandro Michael, realiza vários trabalhos fotográficos na cidade, incluindo alguns ensaios sensuais, que são visualizados nos sites. O preço médio de cada ensaio é de R$250 reais. Em entrevista ele contou que já fotografou mais de 200 meninas nos últimos 5 anos.
O ocultismo serviu também para atrair casais que buscam aventuras sexuais, sem a necessidade de algum tipo de pagamento. Existem comunidades em sites de relacionamento que servem para intermediar esses encontros.
“Bruna Surfistinha” britânica
O enredo é o mesmo, um blog que vira livro, e torna uma (ex)garota de programa famosa e com várias cifras no bolso. Mas dessa vez a história vazou das revistas tupiniquins e virou capa de todos os grandes jornais na Europa.
A protagonista dessa história que abalou o meio científico europeu é a cientista Brooke Magnanti, de 34 anos. Sim, isso mesmo uma cientista. Em comum com a sua versão brasileira apenas uma tatuagem de escorpião, utilizada como capa e titulo do livro nacional.
A história só veio a tona após um surto psicológico causado por sua dupla personalidade, e ameaças de um ex-namorado que a ameaçou de contar toda a verdade para tablóides sensacionalistas britânicos.
Hoje ela conta com o título acadêmico de Ph. D. Trabalha em um conceituada universidade em pesquisas sobre o câncer infantil e em um hospital. A universidade divulgou uma nota dando apoio a cientista, dizendo que a vida pregressa dela nunca influenciou em nada seu trabalho.
Prostituição pode ser legalizada
A legislação brasileira não é clara no que diz respeito à prostituição. O Código Penal Brasileiro, no capítulo 5, artigos 227 a 231, não condena a prostituição em si, mas também não se mostra a favor. O código condena somente aqueles que favorecem a sua prática.
Hoje, o governo já discute o assunto. Tramita no Congresso um projeto de lei do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que apóia a legalização da atividade. Em seu blog, ele defende que a prostituição é uma atividade contemporânea à própria civilização. Cita o exemplo da Alemanha, onde a prostituição é legalizada. Os artigos do Código Penal alemão que se referiam às prostitutas foram retirados para tornar a atividade regularizada.
O Ministério do Trabalho, em sua página na internet, já reconhece a profissão. E define os profissionais do sexo com expressões pouco elegantes, tais como “garota de programa, garoto de programa, meretriz, messalina, michê, mulher da vida, prostituta, quenga, rapariga, trabalhador do sexo, travesti e transexual”.
O termo aparece inclusive na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). O item que apresenta as competências para a atividade é o 5.198 e tem 18 tópicos que são uma espécie de 10 mandamentos. Nele, por exemplo, está escrito que o profissional deve demonstrar capacidade de persuasão, demonstrar ética profissional, manter sigilo profissional e cuidar da higiene pessoal.
Para a garota de programa Luana*, 24 anos, a regularização da profissão será bem-vinda. “Desde quando para a mulher que é maior de idade se prostituir é crime? Nenhum homem é obrigado a transar com uma garota de programa. Geralmente são homens casados que procuram a gente. São serviços prestados que não têm vínculo”.
Luana vê pontos negativos e positivos na regularização. “Acredito que vai ser bom porque não vai ter mais esse lance de denunciar quem faz programa. Mas sou contra a regularização da profissão quando o assunto é registrar na carteira de trabalho como prostituta. Se for assim, tô fora”, conta a ruiva de olhos castanhos que tem seu ponto na frente de um supermercado na Asa Norte.
Perfil de universitárias anunciantes de classificados
Nome: Aika* e Akira*
Idade: 19 (gêmeas)
Cursam Educação física e psicologia, não quiseram revelar o período.
O dinheiro é destinado para pagar os estudos e manter a moradia, a família não sabe do trabalho delas. São de outro estado (não revelaram a origem também).
Depois de formadas vão analisar a situação. Podem voltar para o estado ou se manter por aqui mesmo. Não decidiram se vão realmente ser professoras ou continuar na vida atual. Moram juntas na 705 norte, mas nem sempre atendem seus clientes juntas. O valor das duas é de R$100 reais e apenas uma é R$70 reais e deixam o cliente conhecê-las antes do programa.
Informações do anuncio no jornal de quarta-feira 02 de dezembro: “Aika e Akira chinesinhas gêmeas insaciáveis, universitárias com beijo na boca e estriper. 3347-XXXX”
Nome: Aline*
Idade: 34
Cursa mestrado em medicina tropical.
O dinheiro da prostituição é para se manter no DF, pois é natural de Mato Grosso, sua família não tem conhecimento da atividade que faz aqui no DF.
Depois que terminar seu mestrado vai tentar carreira no Rio de Janeiro.
O valor de seu cachê é de R$150 reais “completo” reside no sudoeste.
Informações do seu anuncio no jornal de quarta-feira (2): “Aline universitária pronta para lhe ensinar mil loucuras. Sudoeste 8622-XXXX”
Nome: Pâmela*
Cursa engenharia civil está no 3º semestre. É classificada como universitária de luxo (cobra cachê de R$200 reais), reside no Hotel Bonaparte, setor hoteleiro sul e seus programas também são realizados lá. O dinheiro serve tanto para se manter no DF quanto para pagar os estudos e também para pagar o tratamento de diabetes de sua mãe (que sabe da prostituição da filha). Veio de Araxá, em Minas Gerais para trabalhar e estudar na capital.
Depois de formada pretende sair do país e viver na suíça, país que conhece pessoas ligadas a arquitetura e vai trabalhar na sua área, engenharia civil.
Informações do seu anúncio no jornal de quarta-feira (2): “ GATA TOP DE LINHA 20ª Pamela um luxo!!! Com traços exuberantes pele rosada aveludada, corpo desenhado a pincel. Universitária 100% carinhosa e discreta para executivos 9998-XXXX”
* os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.